Eu hoje me peguei tentando mais uma vez soterrar uma lembrança do passado. E eu literalmente imagino ela sendo soterrada por areia enquanto eu a revejo no meu arquivo mental e eu soterro tantas vezes na minha imaginação que um dia ela simplesmente vai embora e eu páro de pensar nela com detalhes, vou esquecendo as partes. Eu faço isso com tudo que eu sinto saudade, com todas as coisas que me deixam tristes, mas que um dia me fizeram feliz.
Não, eu não fui sempre assim, em algum momento da minha vida eu era o oposto de tudo isso. Quando foi que virei essa pessoa cética ao máximo? A única saudade que me permito sentir atualmente é do Rio, que sempre rende meus posts enlouquecidos nesse blog discorrendo sobre como sinto falta do meu mundo e as vezes me permito sentir saudades dos meus amigos de colégio. Mas fora isso, qualquer outra lembrança que me dá saudade, que me faz sentir frágil, que me faz duvidar da minha racionalidade, eu simplemente faço questão de tentar passar uma borracha (ou uma areia, não sei porque jogo areia, ainda tenho questionamento sério a respeito disso).
Acho que comecei a fazer isso no mesmo momento em que passei a desacreditar em para sempre, em nunca, em amores incondicionais, tirando o da minha mãe, e de felicidades plenas. Uma amiga hoje me mandou um texto sobre como o presente é a nossa felicidade, que o passado nos deixa apegados e que o futuro são promessas vazias de coisas que não sabemos mesmo se vamos conquistar. Tem uma frase feita muito boa que diz: "a vida só pode ser compreendida olhando-se para trás e só pode ser vivida olhando-se para frente". Acho que o que faz a vida é o equilibrio de saber olhar o passado com carinho, ver as falhas, aprender com os erros, e saber enxergar as milhares de possibilidades do futuro.
Por isso tenho medo de que esse ceticismo exacerbado pode causar em mim, uma pessoa com memórias soterradas que deixou de fazer planos para o futuro com medo dos planos naufragados do passado. O que aprendi olhando para trás foi que não quero ver mais o atrás e tenho mais medo ainda de pensar no pra frente. Ótimo, né?
No dia em que me demiti do meu ultimo emprego eu parei, eu simplesmente desisti do futuro. Não que eu tenha cruzado os braços, mas eu simplesmente parei de elaborá-lo. Eu larguei tudo que eu mais amava por uma coisa que não significava nada para mim. Acho que ainda tô tentando, até hoje, administrar essa decisão. Nesse meio tempo eu fui soterrando o que me lembrava outras épocas, fui desacreditando em tantas coisas, que as vezes sou só uma fotografia borrada da menina cheia de sonhos bobocas com 15 anos.
Eu quis essa mudança, mas agora, tantos anos de adestramento para sentir cada vez menos, me pergunto se essa era a resposta para minhas angústias adolescentes. Ainda não tenho pergunta respondida, talvez eu nunca tenha e fico assim, cheia das minhas memórias soterradas, futuros incertos me indagando qual foi a curva que eu virei que me trouxe até aqui.


